17 fevereiro 2006

... até ao fim dos nossos dias

É extraordinária a impiedade do povo para com o persistente amor de Carlos e Camilla. E porquê? Porque Camilla não cumpre o cânone aprovado para as princesas. Assim que conheceu Carlos, num torneio de pólo, em 1970, informou-o de que a trisavó dela (Alice Keppel) e o trisavô dele (Eduardo VII) tinham sido amantes. E interpelou-o, de rajada «O que lhe parece isto?» Carlos ficou estonteado... até hoje! Fora Camilla uma beleza e a frase entraria de imediato no panteão das grandes fórmulas de engate. Sendo, como era, uma rapariga sem particular fotogenia, trinta e cinco anos depois ainda não comove ninguém. É este o Ocidente que tem no GRANDE AMOR a sua pedra de toque?
Os comentários infames que se lêem e ouvem sobre este casamento mostram bem de que falamos quando falamos de amor: simplesmente, de uma garota com 86-60-86 e cara de gatinho siamês triste. Do resistente amor de Carlos e Camila, o que se diz - ouvi-o na televisão - «que ele esta gaga» e que ela «precisava, para começar, de ir a um cirurgião plástico buscar uma cara nova». A ele consideram-no gaga, evidentemente, porque não casou com uma Madonna quarentona. Ele sempre foi gaga, acrescentam alguns, porque, mesmo depois de casado com a jovem beldade embrulhada em celofane que era Diana, continuou a amar a vulgaríssima Camilla. Camilla é, neste imaginário tão vasto como um bidé e profundo como uma alface, a bruxa perfeita: já não tem trinta anos nem nunca se esgatanhou para parecer tê-los, ri alto e bom som em vez de corar, sabe o que quer e para onde vai (sempre soube, por exemplo, que não queria ir para rainha), fuma, caça, e - crime dos crimes – é 17 meses mais velha que o seu amado. Que um homem de 56 anos anuncie o seu casamento com a mulher de 57 anos que amou a vida inteira, isso é um escândalo. Nas sondagens de rua, o povo franze o sobrolho, acha mal. Acha-a velha e de nariz empinado. O povo diz que a roupa dela parece toda de saldo, ao mesmo tempo que se aflige com os custos que esta nova duquesa pode causar. Título de uma revista: «Camilla trama Príncipe de Gales». Tramou-o, sim - há muitos anos, mais exactamente em 1973 quando, desiludida com a falta de coragem do seu então jovem príncipe, aproveitou uma longa viagem dele para casar com um seu devoto pretendente, o oficial Andrew Parker-Bowles. Erros de juventude, precipitações QUE LEVAM UMA VIDA INTEIRA A CORRIGIR. Alguns felizes conseguem-no. No fundo, no fundo, é isso que a maioria frustrada e rancorosa não aguenta: que alguns seres humanos CONSIGAM ESCUTAR A VOZ DO GRANDE AMOR, E SEGUI-LA, POR ATALHOS E ESCARPAS, até ao fim dos seus dias.

1 comentário:

Francisco disse...

É um verdadeiro elogio à coragem de se fazer o que se quer, ligando pouco às convenções. E da parte de alguém que teria todas as razões (menos uma...) para o fazer. E é baseado na vida real...