19 abril 2009

O MEDO PARALISA*

Fazia muito tempo que o menino estava demorado mas entretido e cumpridor na tarefa de se confirmar como uma verdadeira bestinha inatingível.
À menina tinha-lhe calhado em sorte a tarefa mais leve de andar à deriva entre perceber se mandava no mundo ou o mundo nela.
Para o caso de mandar no mundo, já se tinha acostumado a prescindir dos seus grandes projectos. Deste modo, sobrava-lhe mais tempo para tentar perceber por que razão, aquilo que ela mais gostava de fazer - ela adorava voar -, só o praticava na perfeição se o mundo mandasse nela. Sim, o problema dela não era medo de voar, não eram dúvidas se queria e sabia ou não voar. O problema dela é que não gostava de ser ela a escolher as suas próprias asas. E não o admitia.

O menino sofria de doença crónica: «Síndrome de Dom Juanismo». Está exímio na prática. Já nem emagrecia quando as coisas não lhe corriam tão bem quanto na época em que o leque de presas era mais vasto. Continuava um excelente predador.
A sua doença estava bem disfarçada porque ao contrário do que defendiam os entendidos, no caso do menino, não era a permanência numa relação ou a dificuldade em respeitar um compromisso que o afastavam. Era e sempre o medo de perder o objecto amado.

Concluímos então que tanto no menino como na menina – e diferenças esclarecidas -, é o complexo de rejeição que os leva, A AMBOS, a comportamentos artificiais. Os dois já tinham concordado com a frase de um dos seus filmes: «De nada nos vale conhecer a pessoa certa, se for na altura errada». Mas eles sabiam que neste caso tudo custava um bocadinho mais porque foram eles que inventaram todas as impossibilidades. Antes mesmo do primeiro beijo, já estavam a tentar esclarecer quão afortunados eram por terem consciência que iam inventar o maior dos pessimismos, de onde se destaca:
Menino: Queres ter filhos? Eu também! Mas isso é um pormenor de merda.
Menina: Pois é. Não é assim tão importante. Até porque é óbvio que agora é que era... E assim sendo, onde está o desafio? Esquece.
Menina: E se em vez de eu me focalizar que me tratas bem, te relembrar que tiveste sempre muitas mulheres?
Menino: Sim, é uma boa ajuda. E até te acrescento que as mulheres a que te referes estão hoje muito mal. Deixaram de querer relações/ralações. Estão mais ou menos assim como tu. Só que tu ainda tens a vantagem de não ter nada. E quem não tem nada, não tem nada a perder. Por isso, nesta relação, só tinhas a ganhar. Por conseguinte, é melhor não.

Menina: Assim sendo, querido menino, volta lá para os teus jogos de sedução compulsiva. Eu por mim vou tentar fazer joguinhos de Matemática. É que com esta confusão toda, já houve até momentos em que já me estavas a confundir e levar a acreditar que 1+1 = 1.

Menino: Cala-te. Eu espero.

Rui Moutinho


* Conclusão óbvia de uma experiência maquiavélica. Resumidamente: um cão numa cela. Quatro malgas de comida em cada um dos cantos. Na primeira semana, tudo normal. Na segunda semana, electrificaram uma das malgas. O cão deixou de se aproximar dessa malga. Terceira semana: a malga electrificada ia alternando. O cão deixou de se alimentar.
Para quem quiser ler um pouco mais sobre «MEDO» fica a proposta de leitura: «Como Lidar com o Medo» de Michel Echenique Isasa, de onde destaco: «O medo é uma interrupção súbita do processo de racionalização. A primeira coisa que acontece é perder a capacidade de racionalizar uma situação qualquer. É muito claro observar que numa situação de perigo as pessoas fazem coisas que são justamente aquelas que não deveriam ser feitas. Porquê? Porque pensam, sem saber o que está a acontecer».

Mas será que é necessário manter a racionalização quando não sabemos o que está a acontecer? Esse é o maior preconceito do nosso pensamento - pensar, muitas vezes sem saber exactamente o que está a acontecer, e geramos uma espécie de fantasia mental proprietária da maior das cegueiras. E existem tantas fantasias melhorzinhas que esta ;)



2 comentários:

"Picos" disse...

Gosto desse dá-me tudo/não, afinal não quero! ou gato/rato ou amor/ódio.
Giro ler-te, se é um original teu direi… perfeito!
Quanto ao vídeo, veio tornar o contexto intimamente quente.
Escreve sim! Com alma e com essa garra grrrrrrrrrrauuuu…

RuiMoutinho disse...

Querida Picos,

Obrigado por tão surpreendente e generoso comentário.
Grrrrrrrraauuuuuuuuu para ti também. Até já, no sítio do costume, à hora do costume ;)

Beijinho

Rui