31 março 2011
25 março 2011
Mia Couto - Geração à Rasca - A Nossa Culpa

Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo.
Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.
Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.
Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.
Foi então que os pais ficaram à rasca. Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração. São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!
A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.
Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.
Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.
E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!
Novos e velhos, todos estamos à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens. Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles. A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la.
Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam. Haverá mais triste prova do nosso falhanço?
12 agosto 2010
menina bonita tem coração
Não tenho memória que tal disparate me tenha voltado a acontecer desde 1980, com uma tal de Blondie. Essa senhora tem hoje 65 anos e estava tudo calminho até aparecer a menina de que agora vos falo.
Falo-vos dela nos poucos momentos de lucidez e já sem as desculpas de adolescente que permitiam a Blondie acordar todos os dias comigo, na casa dos meus pais. É que diariamente acontece-me largar tudo e ir ter com ela. O voo dura cerca de três a quatro minutos. Depois regresso. Felizmente regresso. Infelizmente regresso.
Não existe voz que tão bem atormente como esta. Katie Melua.
13 abril 2010
Beijo Bandido

17 fevereiro 2010
Como o Vento.
Cartas coloridas.
Nesse lugar, é o vento quem lê as cartas.
Nós não lemos as cartas. Não nos eram destinadas.
A memória não lê cartas que não sejam nossas.
Mas não é sempre assim o amor? Fácil de sentir e impossível de agarrar. Como o Vento.
03 dezembro 2009
De novo a sorrir? Sim.
Voltei a ver-te sorrir. Que bom.
Voltei a fotografar-te. Volta não volta, eu volto.
Até já.
09 novembro 2009
13 outubro 2009
Deriva
14 setembro 2009
Ricardo Tellado Senra

Nessa casa soube as tuas histórias. Soube das histórias em tom de canção. Canção Galega.
A mãe contou-me essas histórias. Da fuga da Guerra Civil Espanhola. Do casamento com uma senhora do Porto. A mãe continua a contar-me uma história. Uma previsão. «Rui, estás cada vez mais parecido com o teu avô. De cara e não só. Vais ser igualzinho a ele. Guardas para dentro e só abres a boca quando a tempestade vem ai».
Lembro-me hoje dos passeios pelo Lumiar. Lembro-me do meu primeiro jogo de cartas. Lembro-me das conversas com o relojoeiro do Lumiar. Sabes, essa loja já não existe. Mas existe um condomínio muito bonito: uma merda de boniteza.
Aliás, acho que já não existe a rua onde passeávamos porque já não existem os passos que ma ensinaram. Reparaste no pormenor do «ensinar»? Sim, tu com o teu sempre presente espanhol, ias gostar agora de saber que continuo a adorar a tua terra Natal e que passo muito por lá. E eles lá não dizem mostrar, dizem «enseñar». Acho bonito. Assim como tu acharias bonito saberes que hoje sou professor e passo o tempo a (tentar) «enseñar». Ficas a saber.
Por causa do meu trabalho e da minha vida pessoal, precisava muito que me explicasses esse teu truque de seres respeitado sem nunca teres de dizer um único «não».
E lembro-me também da fama mal-afamada de Alfama onde tiveste a tua taberna galega. E quando chegava aquela hora de inventares as batalhas que travaste com venezuelanos? Que percorreste a América do Sul toda a defender o reino de Castela? Será por isso que o meu local de eleição, em todo o mundo, são precisamente os moinhos de Consuegra, onde D. Quixote via gigantes. Olha, são gigantes mesmo, sabias? Ainda bem que concordas comigo. Já agora, porque é que sempre concordaste comigo? Já agora, porque é que me apareces sistematicamente em sonhos?
Parabéns, avô. Farias hoje 100 anos. É quase hora de eternidade, não é?
08 setembro 2009
Penélope, chama-me Ulisses. Por favor.

Sempre pensei assim. Mas hoje rendo-me.
Na semana passada aceitei participar num concurso. O desafio era simples: A propósito da estreia em Portugal de Los abrazos rotos, duas ou três perguntas sobre a obra de Pedro Almodôvar mais duas perguntas engraçadas: 1) Diga-nos quem gostaria de abraçar; 2) Justifique a sua escolha.
Para minha surpresa, fui um dos seleccionados.
E porquê este post com uma informação tão banal? Porque com este prémio (lugar na antestreia do filme) amanhã é dia de Dona Penélope e estava a ver que não encontrava um motivo para a fotografia dela aparecer neste blogue. Assim sendo, amanhã já não tenho de a procurar numa qualquer montra de fast-fashion. Sacaninha que só me aparece e sempre na versão bidimensional. Até já niña. Preciosa. E tanto que ela também adora La Mancha (ver Volver).
08 agosto 2009
É bom esperar, mas também conseguir
30 julho 2009
Manipulação ou MAGIA MALIGNA
«Não me f**** o juízo» de Colin McGinn. Editorial Bizâncio. Lisboa. 2009.
Ora aqui ficam mais citações e reflexões da leitura deste livro.

O mentiroso hábil tem de ser capaz de apresentar uma defesa convincente daquilo que é falso, e o mesmo se passa com quem prega tretas. Mas quem fode o juízo tem de ir mais além em termos de aptidões: tem de ser hábil a manipular a psicologia da VÍTIMA. É um desafio maior e requer mais apetrechos. Requer outro tipo de inteligência, convenhamos.
O pré-requisito mínimo de quem quer ser (ou constatar se pode ser) um calibrado manipulador, é concentrar-se (dia e noite, já que o bom manipulador deve ser obsessivo) em procurar as inseguranças da vítima. O objectivo é produzir um estado de perturbação emocional na vítima.
Fazer a coisinha bem-feita, implica produzir na vítima um conjunto de crenças falsas, que levará então à perturbação emocional, que é o objectivo. Explorar as fraquezas. Por exemplo, os medos irracionais já que estes não precisam de algo convincente para surgirem, pelo que são particularmente úteis ao fode-juízos que se preze.
Querem pistas?
Inseguranças acerca da aparência física podem ser um terreno fértil. Ansiedades vagas acerca do futuro também são facilmente aproveitáveis. As fobias são as mais fáceis de todas pois são irracionais por natureza e é fácil evocá-las.
No seu livro, Colin McGinn dá um exemplo engraçado: Colin conheceu em tempos uma mulher que tinha uma grave fobia a borboletas, mesmo que estivessem mortas e fixas atrás de um vidro. Seria canja foder-lhe o juízo, sugerindo a presença de borboletas debaixo da cama. Básico!
Tudo isto é muito “engraçado” mas é preciso ter presente que o agente de que falamos e que é formidavelmente dissecado no livro aconselhado nestes dois últimos posts, é na melhor das hipóteses malicioso e pode, na pior das hipóteses, ser homicida.
O primeiro passo é ganhar a confiança da vítima antes de poder trair. Tem de a convencer que é seu amigo antes de usar a sua MAGIA MALIGNA contra si. Por outras palavras, tem de haver um período preliminar de sedução.
Foder o juízo, por conseguinte, exige algum planeamento e premeditação, bem como acuidade psicológica; não é por acaso que se fala na «arte de foder o juízo» (e na ciência também).
Quem fode o juízo explora o que já está presente na vítima: cheira-lhe a terreno fértil. Num certo sentido, portanto, toda a psicofoda é, pelo menos em parte, auto-infligida. É uma manipulação do temperamento prévio da vítima. Por muito que custe, admita-se que a psicofoda só existe porque a vítima está receptiva aos logros e jogos do manipulador.
Na obra de Colin McGinn encontramos um capítulo “delicioso” de exemplos de psicofodas célebres. Desde Otelo de Shakespeare até às mais recentes seitas religiosas. A concepção medieval do Inferno é dos exemplos mais perfeitos. Fascismo, Comunismo e no mundo de hoje os casos do Islão Radical e a Coreia do Norte, representam candidatos plausíveis à honra de serem designados mega-psico-fodistas.
Todos estes casos estão no bom caminho porque começaram bem: o acto de foder o juízo nunca se pode anunciar a si próprio como tal, tem sempre de se disfarçar de persuasão racional bem-intencionada e é imprescindível que os que estão sob o seu controlo não se apercebam da sua situação real. Evitar contacto com informação (amigos, inclusive) é quase pré-requisito para o sucesso da psicofoda.
A propósito de “evitar contacto com informação”, é óbvio que isso acontece porque o manipulador que em genérico é ALGUÉM QUE EXPLORA MEDOS E INSEGURANÇAS é por natureza alguém inseguro. Sabe que só colocando a vítima em cativeiro, conseguirá apresentar como credível este (único) mundo que quer impor.

Conclusão (nada bonita): A psicofoda perfeita apresenta uma configuração em que leva a vítima a adaptar-se à psicofoda. É como se ficasse viciada nela.
Da leitura dos últimos capítulos do livro aqui apresentado, fica a ideia de que a mente pode realmente foder o juízo a si própria, e fá-lo repetida, metódica e impiedosamente. Exemplo? Os sonhos! Como dizia Goya «O sono da razão engendra monstros». E aí ninguém consegue mexer.
Fica por desvendar neste post o ex-líbris das perturbações emocionais – o amor romântico enquanto exemplo de psicofoda. Aconselho vivamente. O livro, claro está!
PS: Se alguém pedir muito (ou pouquíssimo), coloco aqui uma pequena lista de filmes, idealizados para foder o juízo. Prometido.
28 julho 2009
«Não me f**** o juízo»

«Não me f**** o juízo» ou «Mindfucking» no original, é uma pormenorizada crítica da manipulação mental. Recomendo para uma férias tranquilas. Que talvez o deixem de ser após a leitura desta interessante obra. Mas não se deixem manipular por esta minha primária insinuação.
No início do livro, Colin McGinn confronta-nos com a expressão «foder o juízo» e demonstra como seria errado e incompleto trocar esta denominação por outra menos polémica.
Foder o juízo (ou psicofoda como muitas vezes aparece no livro) não tem nada a ver com mentir ou vender treta.
O mentiroso acaba por vender algo que ou não existiu ou em que também ele não acredita. O manipulador fode a bom foder, mas só com a verdade: a sua verdade!
Linguisticamente próximas são também as expressões «fazer jogos mentais» e «dar a volta a». E é aqui que aparece a classificação mais “fascinante”: A Receptividade Emocional.
Manipular é explorar a receptividade emocional. Explorar tal sensibilidade para alcançar um fim particular. Dar a volta às pessoas é explorá-las contra elas próprias. Entra, portanto, na categoria de agressão e mostra-nos este livrinho, que não é para todos. A maior parte destes “jogadores” ficam-se pelo fascínio da mentira.
A mentira não consegue chegar tão “longe”: interferir no equilíbrio psicológico de uma pessoa jogando com as suas susceptibilidades emocionais, deixando-a num estado de violação mental.
Devemos assinalar, antes de mais, que «foder o juízo» não tem um significado exclusivamente negativo. Quando se diz que uma obra de arte/um filme/um livro nos «foderam o juízo», pode esconder-se com isto uma avaliação positiva: algo que mexeu muito connosco. Que nos «lixou» psicologicamente e que pode pertencer ao tipo desejável.
Depois de elucidar o teor da expressão «foder o juízo», o autor remonta à origem do conceito. Chega até Platão que preocupava-se seriamente em combater aqueles oradores da Grécia Antiga conhecidos como «sofistas». Quem estiver a ler este post fica a saber que acabei de apresentar os primeiros fode-juízos de que há registo. Estes tipos chegavam a propor, mediante um pagamento, ganhar qualquer discussão, especialmente em tribunal, por quaisquer meios de que dispusessem. Meninos!
Para os sofistas valia tudo. Batoteiros! Em vez de usarem apenas os meios de persuasão racional, recorriam a métodos de manipulação psicológica: lisonjeavam, seduziam, fodendo o juízo ao público e não tinham quaisquer escrúpulos em usar falácias e falsidades. Tinham, no entanto, um ponto forte: conseguiam transformar quem os escutava em novos fode-juízos.
A essência do jogo dos sofistas é a essência do manipulador (repito: NÃO É PARA QUALQUER UM): Persuadir, não apelando às faculdades racionais mas recorrendo à emoção.
Uma pessoa pode ficar ressentida ao ser persuadida de algo através de meios racionais, mas não pode num caso desses protestar legitimamente que lhe foderam o juízo. Na verdade, os sofistas davam a entender que usavam a persuasão racional mas davam apenas a volta às pessoas e fodiam-lhes o juízo.

Quando se dá mesmo a volta a uma pessoa, isso é uma mudança radical. Uma manipulação que se preze, não representa a simples substituição casual de uma crença por outra, mas sim uma mudança sísmica na concepção do mundo. É uma revolução na «consciência» do outro e não meramente em crenças. Todo um novo mundo se abre…
Esperando que esta breve abordagem sirva para despertar o interesse em aprofundar a psicofoda na obra de Colin McGinn, fica o aviso que o acto de foder o juízo não é um episódio passageiro. Quase sempre ficam resíduos na mente, que crescem e se transformam, germinando para o mundo. Um juízo bem fodido, é-o para toda a vidinha.
08 julho 2009
Teatro de Máscaras

Poderá existir alguma verdade nesse teu sorriso morno? Já aprendemos o peso que têm os olhares dantes trocados, vazios de resposta. Tu sabes que eu vim, por outros caminhos, da margem queimada. E tu, com esse estilo discreto da aventura que repetidamente procuraste colocar entre parêntesis.
Apenas usámos truques para acabar com o incómodo das nossas solidões, em parte gémeas.
05 junho 2009
Aventureiros de Sofá
Hoje, à distância, são muitos os objectos elaborados segundo o minucioso processo de «método de projecto». Mas se eu tiver de escolher dois ou três objectos que verdadeiramente mudaram o nosso rumo nas últimas décadas, seriam:
- gilette. Inventou-se um objecto que elimina as três horas que o papá passava na casa-de-banho, sobretudo ao Domingo. Resultado: passámos a ser viciados no DESCARTÁVEL. E aplicamos isso a quase todos os âmbitos da nossa actuação.
- saco de plástico. Uma coisa tão banal, económica e que, espantem-se... SUPORTA OS LÍQUIDOS. Imaginam a transformação que foi? Sempre me intrigou porque é que algumas pessoas estendiam os sacos de plástico como se de objecto raro se tratasse. Sobretudo pessoas de idade.
Ainda recentemente, ao passear pelo Bairro Alto, reparei nesse pormenor. Valem tanto ou mais que um bom casaco. Deve ser por isso: objecto mágico. Uns deitam fora, outros preservam como tesouro.
- Telecomando. Sim, este é maior de todos. Antes tínhamos de ligar a televisão e sentávamos depois. Agora podemos sentar primeiro e ligar e manipular o mundo depois.
Resultado de tudo isto: MANIPULADORES com retenção de líquidos a descartarmo-nos de tudo e todos. Brincadeira. Na verdade não é assim tão grave. Tornámo-nos apenas Aventureiros de Sofá.

14 maio 2009
Tanto. Com tão pouco. Tudo.
O Tropfest teve início há 17 anos em Sydney, na Austrália. Teve a sua 1ª edição no ano passado em Nova York. O vencedor de 2008 foi este filme totalmente filmado com um telemóvel em Sidney e NY por Jason van Genderen. O seu orçamento foi de 40 dólares!
12 maio 2009
Caixa de Pandora*

- Narciso, só pensas em espelhos. Esqueces-te de mim. A tua Pandora. Dá-me a caixa. Vou abrir sim. Não se vai destruir. Não consigo. Maldição.
- Tu que possuis todos os dons, não entendes que isso é um presente envenenado? Se abrires a caixa libertas-nos da doença, do trabalho, da velhice. Mas também levas a paixão, a boa mentira, a loucura. No fundo da caixa vai permanecer a Esperança. Nessa não consegues tocar.
- Sai do escuro. Cá fora está a verdade. Olha que a Esperança é mais enganadora que a curiosidade. A Esperança leva-nos rapidamente ao fim da vida. Só que por caminhos agradáveis. Espero que ela não esteja lá. Vou abrir.
- Está bem. Também quero a caixa. Só mais uma vez. Ela é o símbolo da minha curiosidade. E a curiosidade morre até depois da Esperança. A curiosidade é a última paixão das pessoas velhas. A última mesmo. Abre-te.
- Sim, posso viver com pequenas loucuras. Mas curiosidades grandes. Como se de um primeiro amor se tratasse. Abro.
11 maio 2009
Antony and the Johnsons - Porto - 18 de Maio
05 maio 2009
Amar é ceder ou um abracinho a Oscar Wilde.

R: É absurdo dividir as pessoas em boas e más. As pessoas ou são encantadoras ou aborrecidas.
S: Sim, admito. É uma tentação ceder.
R: A única maneira de nos livrarmos de uma tentação… é ceder-lhe. E olha que quem disse isto tem mérito e merece ser escutado. Por amar, ultrapassou-se a ele mesmo.
S: Ai, não sei. Se bem que sinto que queria sair de mim. Nunca vivi isto. Queria ver-me dai desse lado. Se calhar alinho.
R: Então vem. Bebe o teu café. Eu espero. Temos esse tempo todo. Já está?
S: Vou. Ai meu Deus. Que pecado.
R: Não há maior pecado que a estupidez. Cala-te. Já cá estamos. Não tem regresso.
30 abril 2009
Só mais esta. A seguir despeço-me do medo.
19 abril 2009
O MEDO PARALISA*
À menina tinha-lhe calhado em sorte a tarefa mais leve de andar à deriva entre perceber se mandava no mundo ou o mundo nela.
Para o caso de mandar no mundo, já se tinha acostumado a prescindir dos seus grandes projectos. Deste modo, sobrava-lhe mais tempo para tentar perceber por que razão, aquilo que ela mais gostava de fazer - ela adorava voar -, só o praticava na perfeição se o mundo mandasse nela. Sim, o problema dela não era medo de voar, não eram dúvidas se queria e sabia ou não voar. O problema dela é que não gostava de ser ela a escolher as suas próprias asas. E não o admitia.
O menino sofria de doença crónica: «Síndrome de Dom Juanismo». Está exímio na prática. Já nem emagrecia quando as coisas não lhe corriam tão bem quanto na época em que o leque de presas era mais vasto. Continuava um excelente predador.
A sua doença estava bem disfarçada porque ao contrário do que defendiam os entendidos, no caso do menino, não era a permanência numa relação ou a dificuldade em respeitar um compromisso que o afastavam. Era e sempre o medo de perder o objecto amado.
Concluímos então que tanto no menino como na menina – e diferenças esclarecidas -, é o complexo de rejeição que os leva, A AMBOS, a comportamentos artificiais. Os dois já tinham concordado com a frase de um dos seus filmes: «De nada nos vale conhecer a pessoa certa, se for na altura errada». Mas eles sabiam que neste caso tudo custava um bocadinho mais porque foram eles que inventaram todas as impossibilidades. Antes mesmo do primeiro beijo, já estavam a tentar esclarecer quão afortunados eram por terem consciência que iam inventar o maior dos pessimismos, de onde se destaca:
Menino: Queres ter filhos? Eu também! Mas isso é um pormenor de merda.
Menina: Pois é. Não é assim tão importante. Até porque é óbvio que agora é que era... E assim sendo, onde está o desafio? Esquece.
Menina: E se em vez de eu me focalizar que me tratas bem, te relembrar que tiveste sempre muitas mulheres?
Menino: Sim, é uma boa ajuda. E até te acrescento que as mulheres a que te referes estão hoje muito mal. Deixaram de querer relações/ralações. Estão mais ou menos assim como tu. Só que tu ainda tens a vantagem de não ter nada. E quem não tem nada, não tem nada a perder. Por isso, nesta relação, só tinhas a ganhar. Por conseguinte, é melhor não.
Menina: Assim sendo, querido menino, volta lá para os teus jogos de sedução compulsiva. Eu por mim vou tentar fazer joguinhos de Matemática. É que com esta confusão toda, já houve até momentos em que já me estavas a confundir e levar a acreditar que 1+1 = 1.
Menino: Cala-te. Eu espero.
Rui Moutinho
* Conclusão óbvia de uma experiência maquiavélica. Resumidamente: um cão numa cela. Quatro malgas de comida em cada um dos cantos. Na primeira semana, tudo normal. Na segunda semana, electrificaram uma das malgas. O cão deixou de se aproximar dessa malga. Terceira semana: a malga electrificada ia alternando. O cão deixou de se alimentar.
Para quem quiser ler um pouco mais sobre «MEDO» fica a proposta de leitura: «Como Lidar com o Medo» de Michel Echenique Isasa, de onde destaco: «O medo é uma interrupção súbita do processo de racionalização. A primeira coisa que acontece é perder a capacidade de racionalizar uma situação qualquer. É muito claro observar que numa situação de perigo as pessoas fazem coisas que são justamente aquelas que não deveriam ser feitas. Porquê? Porque pensam, sem saber o que está a acontecer».
Mas será que é necessário manter a racionalização quando não sabemos o que está a acontecer? Esse é o maior preconceito do nosso pensamento - pensar, muitas vezes sem saber exactamente o que está a acontecer, e geramos uma espécie de fantasia mental proprietária da maior das cegueiras. E existem tantas fantasias melhorzinhas que esta ;)
19 março 2009
«um pouco de saber, um pouco de sabedoria e o máximo sabor possível»

Numa época em que o ensino já só me remetia para: cinzento; cinzento avaliação; cinzento discussão; cinzento decepção, cinzento competição, chega-me este livro de todas as cores. De Rubem Alves, psicanalista e professor.
Atente-se, por exemplo, nos títulos de alguns capítulos: «Ensinar a alegria»; «Escola e sofrimento»; «Sobre vacas e moedores»; «Um corpo com asas»; «Tudo o que é pesado flutua no ar».
O que mais me tocou foi uma frase que vai ao encontro da única definição correcta de professor: uma pessoa feliz. Mas esta vai muito mais longe e aponta o único caminho que não pode ser rebatido, contrariado, demonstrado por nenhum ministro(a) ou sabedor sem sabor: o amor.
De Rubem Alves,
«O nascimento do pensamento é igual ao nascimento de uma criança: tudo começa com um acto de amor. Uma semente há-de ser depositada no ventre vazio. E a semente do pensamento é o sonho. Por isso, os educadores, antes de serem especialistas em ferramentas do saber, deveriam ser especialistas em amor: intérpretes de sonhos.»
Bom dia.
15 março 2009
metade
«Passamos metade da vida à espera daqueles que amamos e a outra metade a deixar os que amamos»
Victor Hugo, "Monte de Pedras"
07 março 2009
Descida do céu
Generalizar também tem o seu lado positivo. Ao generalizar podemos prometer que todas as músicas, todas as letras, todos os filmes, todas as pinturas, falam de amor. Quando se pinta, pinta-se logo o mundo inteiro. O único mundo.
«Pinto a mim mesmo porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor»Frida Kahlo
(Frida Kahlo no seu atelier. Fotografia de 1939. A pintar a sua obra mais emblemática: «As duas Fridas»)
22 fevereiro 2009
Mestre Lagoa

Imagino-o hoje num palco a dizer: «Ilustres, vou ter com Almada Negreiros. Já volto»
«Para ser grande, sê inteiro. Nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago, a lua toda brilha porque alta vive.»
Fernando Pessoa
21 fevereiro 2009
São Leonardo da Galafura
Chamou-lhe poema geológico. Sente-se o seu abraço, sem boca.
Em declives vamos até à vez da nau. Nunca Catrineta mas muito tinha que contar se é esta a poesia que o rio escreve porque encostado às vértebras do mundo.
Paz vivida em percalços e socalcos, em terras com pedra rente à terra, frases verdes.
20 fevereiro 2009
olhos vagabundos

A complicada arte de ver
Rubem Alves
Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões _é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."
Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".
Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.
Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.
Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa _garrafa, prato, facão_ era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".
A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas _e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.
Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".
Por isso - porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver - eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...
19 fevereiro 2009
E nunca mais acabarás de regressar!

Frequentou o curso de Teologia na Universidade Católica Portuguesa – Porto, tendo defendido a tese de licenciatura em 1996.
No Seminário e na Faculdade de Teologia criou gosto por entender a poesia e dialogar com a expressão contemporânea.
Licenciou-se em Estudos Portugueses na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Durante esse período (1994 - 1998) a opção monástica criava solidez.
A partir de 1990, e durante vários anos, esteve ligado à paróquia de Santa Marinha de Fornos, Marco de Canaveses. Aí demonstrou o seu enorme potencial de sensibilidade criativa encenando, com poucos recursos, As Artimanhas de Scapan e o Auto da Barca do Inferno.
Faleceu a 9 de Junho de 1999 quando estava prestes a concluir o noviciado no Mosteiro Beneditino de Singeverga.
Amo-te como um planeta em rotação difusa
Valsa da Solidão - Roberta Sá

Onde foi que vivi
17 fevereiro 2009
A MEDIDA DE ESPANHA

e o meu passado é todo esquecimento
a prometer no passo um integral verão
Eu nada sou mas o verão existe
Canta meu coração
Esta é a medida de espanha
Ruy Belo
14 fevereiro 2009
Vôo impossível

Num momento, o homem triste resolveu encerrar aquela discussão, dando argumentos completamente irrefutáveis.
Disse ele: Tudo bem, nada é impossível? Então diz-me, por acaso existe a possibilidade de, por exemplo, um homem levantar vôo?
O outro riu sarcasticamente e disse: Tá, mas nesse caso ia precisar da ajuda dos motores. E sem a ajuda dos motores?
A resposta veio imediata: Asa delta.
A resposta veio mais rapidamente do que antes: Balão de ar quente.
Sair a voar por si próprio, é possível, heim?
O outro homem pensou por uns dois segundos e disse: Bom, numa zona de gravidade baixa, pode-se praticamente voar. Ou num túnel de vento, ou com uma roupa magnética contra uma plataforma magnética de mesma polaridade.
O homem triste enfureceu-se, levantou-se, bateu na mesa e disse: Mas e se eu não tiver nada, nada disso?
Autor: Ben Gurion
10 fevereiro 2009
DESENHAR
Trágica linha em espiral. Grita.
Linha recta. Manipuladora.
Formas em paixão cega. Fúria.
Distância mais curta. Cada vez mais curta.
Coragem? Delego nos declives.
A Embriaguez ancestral a prevalecer. Tudo no limiar ou no limite.
Momento de orgulho. Próximo da cegueira.
Há círculos que se apagam com a chuva.
E voltamos a riscar outros círculos. O mais longe possível da memória dos primeiros.
Rui Moutinho 2007

28 janeiro 2009
História de um Abraço
Mostrou-me as mãos vazias,
As mãos como os meus dias,
Tao leves e banais.
E pediu-me
Que lhe levasse o medo,
Eu disse-lhe um segredo:«Nao partas nunca mais»
21 janeiro 2009
www.olhares.com/ruimoutinho
19 janeiro 2009
«D'este viver aqui neste papel descripto»

Trata-se de um livro que reúne as cartas que António Lobo Antunes escreveu a Maria José, a sua primeira mulher, enquanto esteve na guerra em Angola.
O livro foi apresentado por Joana e por Maria José, as duas filhas do escritor, que organizaram a obra depois de a mãe, entretanto falecida, ter autorizado a publicação das missivas que António Lobo Antunes lhe dirigira de Angola.
Para Joana Lobo Antunes, publicar as cartas permite "preservar a memória" do largo período (1971-1973) que o pai, então médico recém-formado, passou a dez mil quilómetros de casa.
António Lobo Antunes, que afirmou estar demasiado perturbado para falar aos jornalistas, disse apenas ainda não saber se vai reler as cartas e sublinhou que a sua união aos antigos colegas se deve ao facto de terem passado "muito tempo a morrer juntos".
Joaquim Mestre, um ex-colega de Lobo Antunes, recordou os jovens que "apenas queriam ter o direito de voltar para o seu país" e disse que nunca esquecerá "o silêncio do quartel, quando os soldados recebiam as cartas e paravam para as ler".
"Faltam apenas 22 meses e meio", escreveu Lobo Antunes numa das cartas quando a sua estada em Angola ainda estava no início, mas já pesavam as saudades da mulher, que, após o nascimento da filha, partiu com a criança para se juntar ao marido.
O medo de dormir e não voltar a acordar ou de se levantar e nunca mais regressar à cama e os gritos de um soldado quando pisava uma mina e ficava mutilado foram algumas das recordações de um cenário de pesadelo que ainda está vivo nas lembranças dos antigos recrutas.
Apesar deste quotidiano de angústia, as missivas escritas por Lobo Antunes para a mulher são cartas sobretudo marcadas pelo amor, pela saudade e por um profundo sentimento de ausência.
As quase trezentas cartas do médico alferes à amada Maria José (duas das quais dedicadas à filha recém-nascida, baptizada, por decisão de Lobo Antunes, com o nome da esposa) constituem uma espécie de diário do amor ausente, um amor suspenso, em pleno vigor da juventude, adiado por contingências históricas, por uma guerra absurda e inútil como soem ser todas as guerras. Ele parte deixando para trás um casamento recém-iniciado, a esposa grávida, impedido de acompanhar a gestação, o nascimento e os primeiros meses de vida da filha. «Porque não nos deixam ser felizes? Porque nos tiram assim alguns dos melhores anos da nossa vida?»
«Tudo visto e pesado, prós e contras, VEM, VEM JÁ. Estou farto de viver sem ti. Espero apenas que me digas o dia, e que seja o mais próximo possível. Espero-te com todo o amor do mundo. António.» (5 de Abril de 1972)
António Lobo Antunes esteve ao lado da sua "noiva" até aos últimos dias. Outra guerra. E a guerra confere a tudo, e ao amor também, um carácter de urgência. Outro António (Ramos Rosa) disse um dia: «Não posso adiar o amor para outro século».
João Aguardela

Firme nas convicções, determinado nos objectivos , invulgar na forma de ser e estar na vida, desde sempre grangeou respeito e admiração no meio musical, ainda que nunca tivesse procurado o estrelato.
Vítima de cancro, morreu no Hospital da Luz, aos 39 anos. Deixa uma obra invejável e saudade à família e amigos. Como escreveu o João, "os dias sem ti/ são todos iguais/ são dias sem brilho/ são dias a mais".»
texto de Ricardo Alexandre, amigo do João. Do blog http://anaifa.blogspot.com/
16 janeiro 2009
Je l’aime je l’aime, Je ne sais pas pourquoi
«Um grande obstáculo à felicidade é esperar uma felicidade maior»
13 janeiro 2009
PARA SEMPRE
Hoje, a partir das 19h00, assinalando a data feliz, a banda de Tim, Kalu, Gui, Zé Pedro e João Cabeleira vai subir ao palco do Pavilhão de Portugal, no Parque das Nações, em Lisboa, e – só para amigos – fazer uma festa que se pretende inesquecível. É uma festa junto ao Rio. Gostas, não gostas?
Também tu tens agora os teus 30 aninhos. Para ti «Para Sempre» dos Xutos & Pontapés.
07 janeiro 2009
«Luto e melancolia»

[Atente-se na explicação de diferença entre tristeza (normal) e depressão (patologia)]
Freud sugere que a passagem do normal para o patológico acontece por dois motivos: um fracasso e um desvio. O sujeito não consegue desligar-se emocionalmente do objecto que perdeu, isto é, não faz o luto completo, e a dado momento desvia o sentimento que tinha sobre objecto em direcção a si mesmo. É, escreve Freud, como se o sujeito perdesse não objecto mas o «eu». Ele identifica o ego com o objecto e, uma vez derrubada a barreira da auto-estima, ataca o ego como se atacasse o objecto perdido. Cada lamento é uma acusação, cada acto masoquista uma raiva externa reprimida. Um exemplo clássico deste personagem, diz Freud, é Hamlet, o doce príncipe condenado à sua irresolúvel angústia e aos seus inúteis teatros.
Freud não considera que a melancolia seja totalmente negativa. É verdade que ela causa grande sofrimento ao sujeito, mas é uma espécie de porta para a verdade. A melancolia, dada a sua natureza introspectiva, ajuda ao auto-conhecimento. Freud comenta com ironia que às vezes é preciso ficarmos doentes para nos conhecermos. Não é que as ideias do melancólico sobre si e sobre o mundo estejam «certas». Isso não importa: o que importa é representação que ele faz de si e do mundo. É porque existe essa representação que se pode actuar sobre ela. E nem é preciso que seja no contexto médico. Todos os melancólicos fazem gradual e periodicamente uma complicadíssima verificação para saberem se se querem separar do objecto morto (uma pessoa, um tempo, um sítio, uma ideia). Curiosamente, é a própria experiencia da melancolia que «desobscurece» o que estava oculto, o que permanecia ambíguo e ambivalente. Freud explica isso numa formulação muito bonita: o amor, ao refugiar-se no ego, escapou à extinção. E um dia, com o tempo, sai desse turbulento refúgio. E então o sujeito que sofre tornou-se um sujeito consciente.»
04 novembro 2008
BARALHAR PENSAMENTOS III

Gosto destes dias em que a luz pouco cambia. Este dia vai adormecer quase com o mesmo cinzento com que acordou. Era capaz de viver sempre com esta luminosidade. Julgo eu. Assim, quase escuro. No ponto. Nada de sombras mas a luz-cor suficiente. «O destino é severo. Sejamos nós indulgentes. O que é preto talvez não seja escuro».
Hoje está aquilo a que habitualmente se chama um dia feio. No entanto, será um dia especial daqui a muito tempo. Hoje a minha mãe comemora mais um aniversário. Daqui a muitos anos, lembrar-me-ei deste dia. O dia em que a minha mãe fazia anos e ainda era viva. Afinal de contas, estragou-me com mimos. Gostava de a recompensar e mostrar-lhe que sou uma verdadeira besta. Que nada me faria sofrer. Que estivesse descansada. Mas não consigo. Tenho laivos de generosidade, humor, compaixão com e sem paixão, ternura, saudades muitas e merdas dessas.
«A vida não passa de uma oportunidade de encontro; só depois da morte se dá a junção; os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace». Asneira. Parvoíce. Morte é tragédia e ponto final. Para os fortes também.
Como a mãezinha ainda é viva, não me habituei à sua ausência. Também ainda não me habituei a este frio. «Nas ligações do coração, como nas estações, os primeiros frios são os mais sensíveis».
Agora é só esperar. Preguiça. Está frio. Mãe, aquece.
Rui Moutinho 2008
BARALHAR PENSAMENTOS II

A boa ideia mantém-nos acordados durante, no máximo, uma manhã. Mas as grandes ideias, conseguem manter-nos acordados durante toda a noite.
E envolvo aqui Nietzsche, ilustre personalidade incapaz de aceitar o sofrimento e as contradições da vida e que argumentava «Nós fazemos acordados o que fazemos nos sonhos: primeiro inventamos e imaginamos o homem com quem convivemos - para nos esquecermos dele em seguida».
Conseguem mesmo acordar para dentro? Isso chama-se Sonhar! Mas não sonhem muito com aquilo que querem demasiado. Acordam logo. «E a vida é uma criança que é preciso embalar até que adormeça».
Música maestro. Música Luz. «Y de noche , y de noche, por no sentirte solo...»
Rui Moutinho 2008
BARALHAR PENSAMENTOS I

Rui Moutinho 2008
31 outubro 2008
Exibicionistas. Tarados.

Exibicionistas. Vamos junto deles. A estratégia passa por chamar nomes feios, e de esguelha, cuspir naquelas bestas. Tu chamas-lhes egoístas. Sabes fazer isso melhor que ninguém. Vão sentir. Juro. Vamos lá.
Exibicionistas. Tarados.
Que não se beijem antes de lá chegarmos. Só devemos ter direito ao pão possível. Isto de se insuflarem às nossas custas não se faz. Tarados. Exibicionistas.
E estão a ler a Bíblia. A olharem para nós? Aposto que estão naquela parte que acusa «A água roubada é mais doce, o pão escondido é mais saboroso». Estão a meter-se connosco. Não nos atingem, pois não amorzinho?
Logo agora que lhes aparece o sol que aqui não chega e era agora que os pervertidos tinham de começar a barrar as torradinhas com Amor. O que farão ao jantar? Embebedam-se de paixão, não? Tarados. Aquilo é só pão integral. Pois, completos mesmo. Tarados. Refugiam-se um no outro? Estes não se safam. Cegos. Estão em contratempo e ainda não o sabem. Que chuva os castigará. Com os truques destes gajos, posso eu bem. Tarados. São estes animais que me assombram. Exibicionistas.
Por mim, nascia de novo, até passava pela adolescência desproporcionada, só para ter momentos como os desses filhos-da-puta.
Ficámos com os nossos poetas que não nos acodem sempre. Vamos para casa prolongar a nossa angústia.
Exibicionistas. Tarados. Narcisistas.
E o nosso pequeno-almoço, frio.
Esperar a palavra branca

Rui Moutinho 2008